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Roldeck.

Júlio Roldão

20.11.2019 18h00mn

No Auditório do Jornal de Notícias

Hoje fui apresentar o livro do Hélder Bastos “Crónicas de Fim de Século “. Faz precisamente 20 anos que ele publicou a última destas crónicas, um espaço de reflexão sobre as mudanças no jornalismo numa série de textos saídos regularmente no Jornal de Notícias, entre 1994 e 1999, na secção do Nacional então editada por mim, agora também reunidos em livro numa edição da Afrontamento. São textos de uma actualidade preocupante, como quis sublinhar numa apresentação muito emotiva por ter sido proferida no Auditório do JN, um lugar cheio de memórias de plenários de jornalistas e de plenários gerais de trabalhadores. Um lugar cheio de memórias das festas de Natal do JN, quando o jornal celebrava o Natal oferecendo prendas aos filhos dos trabalhadores. Tudo isto foi recordado nesta apresentação, evento que pode muito bem vir a ser o último a realizar-se naquele Auditório considerando o já anunciado destino das instalações do jornal - um hotel cinco estrelas.

07.11.2019 15h30mn

Na edição em papel do Trevim

Saiu hoje, no quinzenário Trevim, um jornal que ainda tem edição em papel, uma crónica de minha autoria. Já não me via assim publicado, preto no branco, em papel, há muito tempo. Aqui deixo os meus sinceros agradecimentos ao José Orlando, que foi quem mediou a publicação desta crónica, e a própria crónica.
JR

"Toca Outra Vez, Sam"

O Dr. Manuel Louzã Henriques cultivava a arte dos melhores colecionadores e colecionava ferramentas tão belas como os arados de lavrar a terra ou algumas máquinas de escrever. Também reunia instrumentos musicais como concertinas e outras sanfonas e até era o dono de um raro piano de estudo que guardava a entrada do bar Clepsidra, em Coimbra, piano velho ali a servir de encosto aos corpos meio cansados de quem bebia um último copo quando os olhos ficavam mais pequenos a medir desejos.

Aceito que haja quem duvide da existência desse piano, considerando, na feliz expressão de Milton Hatoum, a memória e a imaginação irmãs gémeas. Para Milton Hatoum “a memória, mais do que a realidade, é a revelação de um assombro, de uma admiração, de algo que se torna um mito”. Talvez esse piano de estudo tenha sido isto e ainda as músicas que nunca tocou - “play It again, Sam”, toca outra vez “you must remember this // a kiss is still a kiss // a sigh is just a sigh”. Casablanca, "As Time Goes By" *

Se de repente, ao segundo gin-tónico, eu e todos os meus amigos que nunca tocaram piano ouvirmos um anónimo pianista de um bar interpretar a “Ballade pour Adeline” de Richard Clayderman é quase certo que nos deixaremos transportar num sonho onde somos grandes e reconhecidos pianistas. E quando, por sorte, ouvimos cantar e tocar ao ritmo do bater do coração e da respiração humana? O Dr. Manuel Louzã Henriques é que sabia explicar como ninguém estas coisas da magia da música que nos toca.

Um dia, na Lousã, numa festa do jornal O Trevim ouvi-o falar, informalmente, sobre as diferenças entre o fado de Lisboa e o fado de Coimbra. Foi uma lição tão clara e exemplar que bem merecia ser evocada na hora de lembrar o Dr Manuel Louzã Henriques no recente aniversário do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC). Mas não por mim, e muito menos de viva voz, como sugeriu um amigo, esquecendo-se que eu sou ainda muito mais desafinado do que era o piano mudo da entrada do bar Clepsidra.

Júlio Roldão

*"As Time Goes By" de Herman Hupfeld, canção indissociável do filme "Casablanca"

06.11.2019 22h40mn

Na janela da minha sala de estar

Há noites assim. Noites sem início nem fim. Sem bebidas alcoólicas, sem discussões ideológicas em torno, por exemplo, de um filme como "O Baile dos Bombeiros" de Milos Forman, sem nada.

05.11.2019 08h02mn

No bairro do (des)Leal

No Bairro do (des)Leal mora a tristeza e a desesperança.

04.11.2019 18h14mn

Na portuense Rua de Gonçalo Cristóvão

Na portuense Rua de Gonçalo Cristóvão há uma Pérola Negra e um Jornal de Noticias. Até ver, pelo menos no que ao jornal diz respeito.

03.11.2019 08h08mn

No Pueblo de Combarro

No Pueblo de Combarro, um dos mais belos da Galiza, cada um dos seus muitos espigueiros é uma pequena capela de pedra sobre a ria. As rias são braços do Oceano Atlântico que entraram por leitos de rios, ocupando-os e temperando-os com água salgada. Às vezes, estes rios de mar são largos o suficiente para ter ilhas, como a da Toxa, famosa pela capela do século XII, toda coberta de conchas de vieira, e pelos sabonetes com o nome da ilha, um dos “luxos” que os portugueses que visitavam a Galiza em meados do século passado levavam para Portugal como prova da rara viagem turística.

03.11.2019 07h38mn

Na estrada sobre rias baixas

Limite de velocidade 80 km/h. Abertura 1.7. Tempo de exposição 1/375. ISO 100.

02.11.2019 07h11mn

No Hotel Chamuiñas, em Buezas

Em Buezas, Sanxenxo, há uma gaivota e um gaivoto que têm nome próprio. A gaivota, ou melhor, a gaviota, em Castelhano, chama-se Chavela e o gavioto Francisco. Foram baptizados por Dona Fátima, uma equatoriana que gere o Hotel Chamuiñas, de Buezas, Sanxenxo, Hotel de duas estrelas que se recomenda desde logo pela forma como Dona Fátima recebe os hóspedes.

Duas estrelas não. Quatro estrelas que a gaviota Chavela e o gavioto Francisco também são estrelas e contam. Dona Fátima, assim chamada por ter sido encomendada à Senhora de Fátima na hora em que estava a nascer, no Equador, num parto muito difícil que a mais velha parteira virtuosa da aldeia chegou a temer, Dona Fátima fala com a gaviota Chavela e diz ser compreendida por ela.

E também diz que ela namora com o gavioto Francisco, numa inconfidência aparentemente documentada em vídeo que passa, entusiasmada, aos hóspedes enquanto os regista à chegada ao hotel. No vídeo, duas gaivotas, duas gaviotas, ou uma gaviota e um gavioto, defendem a comida que Dona Fátima lhes dá, de repente cobiçada por um bando de gaivotas sem nome que apareceram sabe-se lá de onde.

01.11.2019 20h44mn

No dia de alguns santos

No dia de todos os santos, ou melhor, no dia de alguns santos, fugi para a Galiza. Sanxenxo. Que lugar encantador, tão a Norte! Desconfio que Sanxenxo tem traços do Mediterrâneo, mas eu continuo fiel aos rótulos de vinhos bebidos com os amigos. São tão mais fáceis de aguarelar e acresce que ainda não bebi o espírito deste lugar tão tarde por mim descoberto. No dia de alguns santos deixei-me diabolizar um pouco. Diabolizar talvez seja um exagero.

31.10.2019 08h45mn

No ponto do nevoeiro

No nevoeiro do bairro operário, onde as fachadas das casas não são para preservar, uma máquina sinistra vai destelhando uns "ocupas" ali a tentar morar. Chamava-se do Leal e já foi um bairro tal com centenas de pessoas, talvez mesmo um milhar - gente que foi deslocada dali para outro lugar. Dava para a Bonjardim e parece que 'inda dá. Dizem que vai renascer numa grande superficie. Talvez mesmo num hotel, que o Turismo está a dar. Assim envelhece o Porto. Morto ponto, Porto ponto. Ponto com e ponto org, ou pior, ponto pt.